13/02/2017 Rosana Romão 0Comment

Sair de Fortaleza e curtir o friozinho da serra tomando um café quentinho. Quem vai ou pretende ir à Guaramiranga tem mais uma programação a acrescentar no roteiro: a trilha do café. Localizada no Sítio Águas Finas, da família Uchôa, é parada obrigatória para quem gosta do contato com a natureza e dessa bebida que faz parte do nosso cotidiano, o café. Fiz a trilha e vou contar um pouco para vocês.

A trilha dura cerca de 1h30. (FOTO: arquivo pessoal)
A trilha dura cerca de 1h30. (FOTO: arquivo pessoal)

A história do Café no Ceará se confunde com a história da família Uchôa. O patriarca da família tem os mesmos sobrenomes de quem trouxe o café para a região.

O militar luso-brasileiro Francisco de Melo Palheta é responsável pela introdução do cultivo do café em Brasil e Portugal. Chegou ao Ceará através de José Furna Uchôa, e em Guaramiranga através de Felipe Castelo Branco. E o patriarca da família se chama José Castelo Uchôa.

Ele trabalhava cuidando de um sítio, que adquiriu após se aposentar e iniciou a produção de café em 1937. Por suas inúmeras habilidades, era conhecido na região como “mestre Zé Uchôa”.

Na época, o café era uma cultura muito valorizada em Guaramiranga, ao ponto de famílias tradicionais educarem seus filhos na Europa com o dinheiro da produção.

“Mas meu avô nunca enricou, eu acho que ele já pegou o café na época que já estava caindo. Em 1937 já não tinha aquela produção de antes, eu não lembro do meu pai ser rico por causa de café. A produção dele, no máximo, chegou a 30 sacas de café”, explica Francisco Uchôa.

Francisco Uchôa é quem toca os empreendimentos da família. (FOTO: Rosana Romão)
Francisco Uchôa é quem toca os empreendimentos da família. (FOTO: Rosana Romão)

História do café

Quando o mestre Zé Uchôa faleceu, as filhas queriam vender o sítio, mas o neto Francisco Uchôa quis dar continuidade à tradição da família. A aquisição foi em 1975, mas como trabalhava como coronel do exército, só pode se dedicar ao sítio e à produção do café quando se aposentou, em 2000. Antes só pagava os moradores e visitava o local nas férias.

O que antes era residência do mestre Zé Uchôa hoje é o Casarão dos Uchôa, uma pousada localizada no centro de Guaramiranga. De início, o objetivo da pousada era para criar recursos para pagar o sítio.

Paralelo a isso, Seu Uchôa, passou a investir no café. Se especializou no assunto e acompanhou o processo de produção feito por outras famílias tradicionais, como João Caracas, proprietário do Sítio Floresta, em Pacoti.

Na época, os produtores da Serra de Baturité chegaram a criar uma cooperativa, mas depois foi extinta. “Os maiores produtores de Guaramiranga, que era o Majó Hugo hoje abandonaram a produção. Praticamente quem produz hoje são pouquíssimas pessoas. E a maioria vende o café cru”, complementa Uchôa.

Casa do “véi da mata”, uma das atrações da trilha. (FOTO: arquivo pessoal)
Casa do “véi da mata”, uma das atrações da trilha. (FOTO: arquivo pessoal)

Produção

A produção demora, desde a florada até o café, 9 meses. Isso porque depois da colheita, o café tem 3 meses de estresse, onde ele só descansa. Ou seja, a safra é uma vez por ano. A chuva torna a produção mais atrativa. “Com a chuva, a produção está ótima. Porque assim o café encorpa, se não tiver chuva ele sai miudinho. Esse ano vai ser melhor do que o ano passado, mas nunca vai chegar à produção que a gente queria que tivesse, como 30 sacas de café. Ou seja, dobrar a produção”, explica Seu Uchôa.

Atualmente, o “Café Guará”, produzido pela família Uchôa tem boa aceitação. O quilo é vendido a R$ 50 em grão e a R$ 40 em pó. A diferença se dá porque em grão só entram os cafés inteiros e graúdos, já em pó são inclusos os quebrados. “À medida em que a gente vai vendo os resultados, começa a gostar. Recebe elogios, como ‘o café tá ótimo’, então uma coisa vai levando a outra. Hoje eu sei que o nosso café tá bom mas quero melhorar a qualidade para que ele seja reconhecido nacionalmente”, promete.

A única dificuldade apontadas pelo produtor, é a falta de profissionais apaixonados pela produção. “Eu tenho duas pessoas que trabalham para mim, como Jardelino e Chiquinho, em quem eu confio. Tô penando pra encontrar um jovem que aprenda com eles. Mas o pessoal acha que o trabalho na roça é mais duro e prefere trabalhar com outras coisas, como construção”, lamenta.

Trilha do Café. (FOTO: Rosana Romão)
Trilha do Café. (FOTO: Rosana Romão)

Rota do Café Verde

Embora tenha diferença entre os cafés produzidos em Guaramiranga, Baturité, Pacoti e Mulungu, eles tem algo em comum que tem atraído turistas para a região: a Rota do Café Verde, criada pelo Sebrae Ceará em novembro de 2015. Ainda quando a entidade fazia a vistoria entre os sítios que iriam integrar a rota, a família Uchôa foi escolhida como um caso de sucesso, porque possuía um sítio, uma pousada e uma trilha, com a produção do café. Visionário, Seu Uchôa ainda pretende produzir banana passa e adubo orgânico.

Um dos questionamentos feito pelo representante da família Uchôa é que apesar do atrativo natural do clima agradável, Guaramiranga recebe turistas por um período curto. Segundo ele, na maioria das vezes, por quatro dias no máximo. “Mesmo em épocas festivas, não tem atrativos para você ir. Se você não tiver uma pessoa pra lhe levar nos cantos, como Linha da Serra, Pico Alto e cachoeiras, você vai ficar sem fazer nada”, comenta. Por isso, ele tenta impulsionar o turismo ecológico com a trilha e as hospedagens no Sítio Águas Finas e Casarão dos Uchôa. Para Uchôa, a Rota do Café Verde veio acrescentar os atrativos.

Seu Uchôa e Chiquinho, guias da trilha. (FOTO: arquivo pessoal)
Seu Uchôa e Chiquinho, guias da trilha. (FOTO: arquivo pessoal)

Hospedagem

A família Uchôa oferta dois tipos de hospedagens: uma para quem quer contato total com a natureza e outra para quem deseja ficar mais perto da cidade. A primeira trata-se do Sítio Águas Finas, cercado de verde, ele oferece conforto com quatro suítes para casais e áreas compartilhadas, como sala de estar e cozinha. Com capacidade para 10 pessoas, o lugar é ideal para grupo de amigos ou famílias que queiram dividir o mesmo espaço. De acordo com a quantidade de pessoas, o preço é negociável.

Já o Casarão dos Uchôa é ideal para quem quer praticidade, pois é possível se deslocar a pé para lojas e restaurantes do centro da cidade. Aconchegante, o estabelecimento dá a impressão de que você está hospedado na casa de um parente. São três suítes e uma área maior que pode ser compartilhada por até 11 pessoas. O valor da diária é de R$ 200, mas no caso de duas diárias, a segunda tem 50% de desconto, ou seja, um fim de semana custa R$ 300. Nos dois lugares, você pode saborear o café produzido pela família no café da manhã.

Casarão dos Uchôa. (FOTO: Alex Uchôa)
Casarão dos Uchôa. (FOTO: Alex Uchôa)

Trilha

A trilha do café é localizada ao lado do Sítio Águas Finas e tem uma taxa simbólica de visitação de R$ 15 por pessoa. Há horários às 10h, 11h30, 13h30 e 15h. Existem dois percursos, a trilha curta e a trilha longa. Se você é um praticante ativo de atividades físicas, vale a pena fazer a longa. Se estiver acompanhado de crianças, pode fazer a curta que vai gostar do mesmo jeito e não irá cansar os pequenos. Entre as atrações, estão a Árvore Barriguda, com mais de 100 anos de idade, a Casa do Véi da Mata, a Casa do João de Barro, o Encontro dos Ventos e o Túnel do Amor. A maior parte da trilha tem sombra, então, dá pra fazer em qualquer horário. É aconselhável passar protetor solar, e estar equipado de tênis. Os guias adoram uma prosa e você vai adorar fazer o percurso ouvindo boas histórias.

Árvore barriguda. (FOTO: arquivo pessoal)
Árvore barriguda. (FOTO: arquivo pessoal)

Serviço

Casarão dos UchôaFacebookInstagram
Rua Coronel Francisco de Matos Brito, 163. Guaramiranga – Ceará
Telefone: (85) 3321-1442 | E-mail: casaraodosuchoa@hotmail.com

A repórter viajou para Guaramiranga a convite do Casarão dos Uchôa

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